073 O Ladrão e O Coninhas

Quando acabei de lhe contar a minha versão, a verdadeira, da puta da minha vizinha andar lá pelo palheiro a pagar ao Ti Coisinho os serviços com o corpo, ali assim a dar-lhe o pito. Ele ficou incrédulo. Ria-se, ria-se, e insistia que não se acreditava em mim… Então fiz-lhe uma proposta, o que é que ele me estava disposto a dar em troca da prova de que eu não estava a mentir?
Estavamos nestes entretantos, algures entre a proposta, o rádio toca fitas novo que o meu pai tinha comprado na Espanha, e umas cassetes do cantinflas, quando a minha querida mãezinha desata aos berros à porta da cozinha. Era o costume, queria que eu lhe fosse tirar os botins (são apertados, pronto). Para me armar, em frente ao meu amigo, respondi-lhe na mesma moeda, três berros secos «já vou, caralho!», e em voz baixa só para o meu colega ouvir, injuriei a minha progenitora e a cona que se rasgou para me deitar ao mundo. Fiz-la esperar.
Quando chegamos à porta da cozinha, salta no ar uma filha da puta de uma estalada, direitinha a mim, bem assente, mas como era o Preto que ia na frente, e a minha mãe não viu causa das fitas plásticas que tem na frente da porta, que foi ele quem apanhou, mesmo em cheio.
Ficou ali o pobre coitado, a sangrar, agarrado ao nariz, a minha mãe desfez-se me desculpas, e chorava como uma Madalena arrependida, agarrou-se a ele, encostou-lhe a cabeça ao peito (ou melhor aos peitos) e num ar maternal afagou-lhe a cabeça, eu não sabia se havia de rir ou de chorar. Ao outro até parecia que a dor lhe tinha passado instantaneamente, quer dizer no instante em que ele enfiou a cara pelo decote adentro, mesmo no meio das têtas da vaca, ali assim bem equilibrado.
Ai o caralho!
Nem faltava mais nada!
Ou melhor não faltou mesmo, porque eu não deixei e ele não fez mais nada, se eu não punha a mão ele até era bem capaz até de lhe apalpar as mamas, ou espetar a boca até chegar aos mamilos e ficar ali todo consolado a chupar e a mamar.
Nem estive com meias medidas, agarrei-lhe por um braço, levei-o até ao tanque e efiei-lhe as fuças na água, a minha mãe ria-se como como uma perdida da minha cena de ciumes.
Entretanto, enquanto o aleijado foi à cozinha limpar a cara, eu fiquei no alpendre a tirar as galochas à minha mãe. A cena do costume (ou quase), eu ajoelho-me e ela senta-se no banco de pedra, ergue uma perna, e em jeito de desafio inclina assim o joelho para fora, a mostrar aquelas coxas todas. Não é que a  desenvergonhada me estava só de bata! Quer dizer, ou quase, vendo melhor também tinha vestido soutien, e cuecas, mas nada de saia, nem blusa nem camisola.
Ainda por cima anda-me à semana com cuecas de domingo, onde é que já se vui! Aquelas brancas de seda, rendadas na frente, a ver-se os pintenhos quase todos. Isto lembrou-me logo que aquela mata anda a precisar de ser aparada, mais isto lembra-me que aquela pita é bem capaz de andar a precisar de manutenção, e eu nem me importava nada de lhe mudar o óleo. Caralhos me foda… eu já não molho o bico à tanto tempo, e esta carroçaria toda aqui em casa a enferrujar.
Estava perdido nestes pensamentos, e com a piça já a medrar, quando apanho um daqueles chapadões invisíveis, desviei a vista do sorriso maroto da minha mãe, e esbarrei no sorriso matreiro do Preto que me apreciava por de trás das fitas da porta da cozinha.
Disfarcei o melhor que pude, a plia murchou logo, dei uma pressa na mamãe, e cavei com o Preto dali. Pelo caminho fomos procurando um entendimento, sempre a esconder aqui e ali, para ninguém notar onde íamos. Por fim selamos um acordo com uma cuspidela na palma e um aperto de mão.
Descemos umas leiras, e fomos até à mina da quinta, abri a porta enferrujada e entrei lá dentro sozinho, quando voltei trazia pela mão, os meus troféus, os botins, as calças, e as cuecas do velhote. O Preto estava incrédulo e começou logo a remexer em tudo, encontrou nos bolsos, meio maço de suave, e um isqueiro, um luxo. Sentamos por ali no muro, e fumamos logo um cada um.
Não me imiscui de me gabar logo ao Preto de que tinha escondido tudo muito bem, mas ele ainda me chamou de burro, disse que eu não devia ter era apostado com ele, já que, havia de ter havido por ali muito boa gente à procura daquilo, e até podiam ter encontrado.
Ele estava era fodido por ter perdido a aposta, mas até era verdade.
Se diziam que o fulano se tinha borrado todo, ali estava a prova de que não era isso que tinha acontecido, ainda por cima aqueles remendos no cu das calças não deixam enganar, são mesmo as calças dele.
Contudo, o cabrão do Preto estava convencido, ou melhor, queria era furtar-se à aposta, se eu tivesse perdido, tinha de o ter deixado ver a minha mãe na casa de banho, pelo buraco da fechadura, foi a imposição dele. Como a mim não me interessava nada disso, até porque a mãe dele... pronto, quer dizer, já lhe vi a rata (só não lhe disse). Obriguei-o então a contar um tal segredo cabeludo, que pelos vistos (até) é verdade, mas que ele nunca contou a ninguém.
Saimos dali e eu indiquei o caminho ao Preto, continuamos em direcção à casa da vizinha, com as coisas do outro gajo num manado. Nisto, eu parei e num gesto dramático apontei para o muro de pedra. Agaixei-me e fui inspecionando pedra a pedra, à procura do que queria, nas minhas costas o outro fartava-se de rabujar, com medo de ser apanhado com as coisas do velho na não. Nisto encontrei o que procurava, e com um gesto teatral tirei uma pedra velha do muro, enfiei a mão e saquei lá do fundo as chaves da ignição do tractor.
Afinal a avaria do tractor, tinha sido outra… eu tinha roubado a chave!

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