023 Pão de Ló Húmido

Hoje foi dia de bolo e ela decidiu fazer a receita de pão de ló húmido, não adianta dizer que fiquei logo com água a crescer na boca, coisa que não demorou muito porque aparte de degustar a iguaria houve muito que sobrou para aqui o “je” fazer, e comecei logo por ter de ir rachar lenha e acender o fogão, mas nem tudo foi mau, ontem quando fui à venda do manco buscar a farinha e o açúcar, lavei os olhinhos na “maria” dele que andava eufórica com um berloque novo que lhe adornava o vale dos sonhos, entre aquelas duas montanhas que não se cansavam de dançar mas que aquele grande decote teimava em aguentar dentro dos seus limites.
Mau mesmo mau, foi ter de ir de cestinho debaixo do braço armado em mariconço, à quinta do solar buscar os ovos, a figurinha que eu fazia, só me faltou o capuchinho vermelho pela cabeça e ter levado uma dentada do lobo, que me saudou com uma rosnada feroz quando lá cheguei, pelo caminho ainda parti dois ovos, nada mal considerando que corri a sete pés, e a hipótese de ter sido avistado por algum dos meus amigos e passar o resto da vida a ser xingado de rabeta.
Não adianta relatar a discussão que tive com a mãezinha por causa dos dois ovos partidos, nem percebi bem porque afinal não eram para cozer e partidos até já era meio caminho andado.
Ao fundo de uma bacia foram parar 4 ovos inteiros e 3 taças de vinho bem cheias de açúcar, depois de bem mexido: zuma, 10 minutos a bater, valeu a minha experiência de campeão e bom batedor. Mais uma vez aqui o “je” estava cheio de razão não é que ela dos outros 8 ovos só aproveitou as gemas, e quando a massa já estava a ficar bonitinha, clarinha e fofinha ela decide meter as gemas todas lá para dentro, zumba: e bate aí, mais dez minutos à campeão, se fosse trabalho fácil era para ela, como forrar a forma com papel vegetal.
Como se fosse o grande segredo depois de eu tanto bater ela foi lá mexer a massa devagarinho enquanto botava aos pouquinhos lá para dentro uma taça de vinho com farinha da fininha, parecia a bruxa no caldeirão das poções só faltava a mistela borbulhar e largar fumo amarelado.
Depois de tanto trabalho a doçura merecia uma prova, mas não consegui chegar com o dedo à boca, porque ela agarrou nele e tratou de mo chupar tudinho, aposto que aquela mixórdia não me ia saber tão bem quanto aquele chupão, uma delicia, que me deixou logo em ponto rebuçado.
As mulheres são assim um ser insondável, depois de uma manhã de trabalho para manter sempre o forno quente, não é que ela não deixou o cozer mais que um misero quarto de hora, quase não dava tempo para ela lavar a louça, eu bem me esforçava por ajudar a limpar, ou melhor a atrapalhar de tanto esfregar as minhas mãos nela, espero que seja a melhor forma de atingir os meus objetivos: cativar-lhe a atenção e mostrar que mereço ver o meu castigo abolido...
O bolo saiu do forno coberto por folhas de couve penca encorrilhadas, as coisas que elas fazem para provar que são sofisticadas: porque não podia cozer de mais, nem queimar, nem estorroar, nem... nada, mas que tinha bom aspecto lá isso tinha...
...isso mesmo, tinha bom aspecto porque já não tem, depois de tanto trabalho, à medida que foi arrefecendo o bolo foi abatendo e até parece que por baixo está todo coalhado, eu é que continuo a seco e sem molhar o bico há muito tempo, mas garanto naquela cozinha não foi só o pão de ló que ficou húmido.

1 comentário:

  1. Anda a esquecer-se de escrever mais uns contos, continue pois são muito bons, o da jornaleira é o melhor de todos continue!

    ResponderEliminar